Ryanair deve salários de março a tripulantes colocados em lay off e pressiona para novos contratos por metade do salário

Ryanair deve salários de março a tripulantes colocados em lay off e pressiona para novos contratos por metade do salário

11 de Agosto, 2020 0

Cerca de duas centenas de tripulantes de cabine a trabalhar para a Ryanair ainda não receberam o salário de março. Estes profissionais, formalmente contratados pela Crewlink, empresa de trabalho temporário que serve exclusivamente o propósito de recrutar trabalhadores para a Ryanair sem os vincular diretamente à companhia aérea, foram colocados em lay off a partir de abril. No entanto, segundo várias denúncias que recebemos, a empresa não pagou os vencimentos relativos a março, começando por argumentar que esse valor seria pago quando a operação voltasse ao normal. Perante a demora na regularização do pagamento do salário de março, questionada pelos trabalhadores, a administração da empresa passou a dizer que o valor pago no mês de abril (já em situação de lay off, com o respetivo corte) incluía já o salário de março – algo que, dizem as denúncias, é totalmente falso, até porque o valor foi igual ao dos restantes meses em lay off. Esta situação foi também já denunciada pelo Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC). Conforme foi agora também divulgado na imprensa, além de faltar ao dever elementar com os trabalhadores, a empresa não respeitou as regras definidas para recorrer ao apoio público do “lay off simplificado”, que obriga ao cumprimento integral das “obrigações retributivas devidas aos trabalhadores”.

Além de faltar ao pagamento de salários, a Ryanair está agora a pressionar estes profissionais – a trabalhar com base em Lisboa, no Porto e em Ponta Delgada – a assinar novos contratos, com muito piores condições e em que o salário passaria a ser metade do atual. Em alguns casos, estará mesmo a tentar impor um vencimento base abaixo do salário mínimo. Para forçar esta perda de direitos e de salário, a administração da empresa recorre à chantagem, ameaçando os trabalhadores com o despedimento ou com a deslocalização para operações no estrangeiro. Depois de vários anos a impor a intermediação da Crewlink, a Ryanair está agora a forçar a celebração de contratos diretamente com a própria companhia aérea, para que formalmente seja uma nova relação laboral e assim possa simplesmente eliminar todos os direitos anteriores. Segundos os relatos das várias denúncias, muitos destes profiossionais estão a trabalhar há vários anos para a Ryanair, alguns há cerca de uma década, sempre com contratos precários de 3 anos com a Crewlink.

A administração da Ryanair segue a sua conhecida conduta de agressividade patronal, sem respeito pela legislação do país e pelos mais elementares direitos laborais. Num momento crítico, valendo-se do receio e da incerteza entre os trabalhadores, depois de beneficiar de apoios públicos para manter emprego e salários, tenta impor uma redução salarial para metade a centenas de profissionais, ao mesmo tempo que simplesmente elimina o pagamento de um vencimento mensal. Perante este grosseiro desrespeito dos direitos laborais e das regras para beneficiar de apoios públicos, é urgente que a Autoridade para as Condições do Trabalho intervenha e trave a irresponsabilidade patronal da Ryanair.